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O periquito sorridente: o pensamento positivo mal-entendido

“Tudo é perfeito”. “Está tudo bem”. “Tudo é uma aprendizagem”. São frases que escuto com muita frequência como fazendo parte de uma mente aberta, de uma atitude de crescimento espiritual e de pensamento positivo. E em parte acredito que sim. Porém, observo com demasiada frequência que por trás desta linguagem existem duas atitudes que bloqueiam o real crescimento individual: a negação da realidade e a passividade/desresponsabilização com a própria vida.

Negar a realidade pode ser um mecanismo de proteção da vida perante situações especialmente dolorosas, mas só a muito curto prazo. Viktor Frankl fala deste tipo de mecanismos na sua experiência em campos de concentração. Mas negar ou relativizar a realidade simplesmente como mecanismo habitual de evitar o sofrimento, costuma ter consequências físicas e psicológicas a médio e longo prazo. Um exemplo: se temos alguém ao nosso lado que não nos respeita ou inclusive nos maltrata física ou psicologicamente, e passamos anos e anos a nos focalizar nos aspetos positivos dessa pessoa, entendo que isso não é pensamento positivo, isso é negação da realidade. E as consequências são visíveis: cada vez menos auto-respeito e mendicidade emocional. Outro exemplo: se perdemos alguém importante nas nossas vidas e logo a seguir fazemos de conta que já está tudo ultrapassado, “entendemos” tudo e nos focalizamos no “futuro”, isso não é pensamento positivo, isso é negação da realidade, neste caso a negação da própria dor. Quando a dor é negada, a observação nos diz, que mais cedo ou mais tardar volta aparecer, e de uma forma muito mais profunda, que inclusive pode levar a uma subtil desistência da vontade de viver em pessoas que sempre foram aparentemente positivas. Cara e coroa fazem parte da mesma moeda. Negar uma das partes é negar o todo. E o sofrimento faz parte da existência humana, tal e como a alegria e a felicidade intensa. Um último exemplo: se estamos a ser injustiçados ou explorados como profissionais e insistimos em mostrar “agradecimento” por aquilo que temos, mais uma vez entendo que isso não é pensamento positivo e muito menos uma atitude espiritual. Isso é negação da realidade perante uma falsa segurança, e simplesmente meter em saldos o nosso próprio valor pessoal.

Por trás disto tudo está uma atitude passiva perante a vida, de resignação “simpática”, uma renúncia ao livre arbítrio, renúncia da qual o próprio normalmente não é consciente numa mal-entendida procura da “paz”. É como entrar livremente dentro de uma gaiola, cuja porta está sempre aberta, ficar de costas à mesma, e renunciar a voar. A diferença das atitudes passivo-agressivas daqueles que se queixam contra o seu exterior sem fazer nada para mudá-lo, neste caso o periquito sorri para o público por trás das grades, o qual é sempre mais agradável para os outros, mas não menos angustiante para o próprio. Acredito na lei do Karma como um jogo de ação e consequência, não como uma condena. Ai onde estivermos, independentemente das nossas circunstâncias, sempre temos capacidade de escolha e nunca é tarde para quase nada…

Mais do que falar em pensamento positivo prefiro falar em otimismo realista, entendido como aquele que procura e consegue ver aspetos positivos em qualquer situação da realidade, e que nos permite ver os nossos melhores recursos internos, mesmo nas situações mais duras da existência, para podermos fazer escolhas e levantar o voo. Sempre temos a oportunidade de escolher a libertação da melhor versão de nós mesmos.

Mário Madrigal

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